sábado, 13 de fevereiro de 2021

 


ONE FOR THE ROAD


Eram 10h15 e Herb Tooklander estava pensando em fechar, quando o homem usando um sobretudo elegante, de rosto pálido e olhos arregalados, irrompeu no Tookey’s Bar, que fica na parte norte de Falmouth. Era dia 10 de janeiro, bem na época em que a maioria das pessoas está aprendendo a viver confortavelmente com todas as promessas de Ano-Novo que não cumpriram, e havia uma tempestade miserável caindo lá fora. Quinze centímetros de neve já tinham se acumulado antes de escurecer, e a tempestade continuava a cair com grande intensidade desde então. Por duas vezes, ele vira Billy Larribee passar lá no alto, na cabine do trator de limpar neve da prefeitura, e da segunda vez Tookey levara para ele uma cerveja — um gesto de pura caridade, minha mãe teria dito, e Deus sabe que ela bebera um bocado da cerveja de Tookey na sua época. Billy lhe disse que estavam conseguindo manter a estrada principal desimpedida, mas as secundárias estavam fechadas e provavelmente continuariam assim até a manhã seguinte. O rádio em Portland previa mais 30 centímetros de neve e um vento de 65 quilômetros por hora para empilhá-la.
Só havia Tookey e eu no bar, escutando o vento uivar ao redor das calhas e vendo como fazia o fogo dançar na lareira.
— Tome a saideira, Booth — Tookey disse. — Vou fechar o bar.
Serviu uma para mim e uma para si mesmo, e foi então que a porta se abriu de repente, e aquele desconhecido entrou cambaleando, neve até os ombros e no cabelo, como se ele tivesse rolado sobre açúcar de confeiteiro. O vento soprava uma cortina de neve fina como areia atrás dele.
— Feche a porta! — rugiu Tookey. — Você por acaso nasceu num celeiro?
Nunca vi um homem que parecesse tão apavorado. Era como um cavalo que tivesse passado uma tarde comendo urtigas. Seus olhos rolaram na direção de Tookey e ele disse, “Minha mulher... minha filha...” e desabou no chão, desmaiado.
— Minha nossa — disse Tookey. — Quer fechar a porta, Booth, por favor?
Fui até a porta e a fechei, e empurrá-la contra a força do vento deu bastante trabalho. Tookey estava agachado sobre um dos joelhos, segurando a cabeça do sujeito no alto e dando-lhe uns tapas nas bochechas. Fui até lá e vi na mesma hora que a coisa era séria. Seu rosto estava muito vermelho, mas havia manchas cinzentas
aqui e ali, e quando você já atravessou os invernos do Maine desde que Woodrow Wilson era presidente, como eu, sabe que essas manchas cinzentas significam enregelamento.
— Desmaiou — Tookey disse. — Quer pegar o conhaque no bar, por favor?
Peguei a bebida e voltei. Tookey tinha aberto o casaco do sujeito. Ele recobrara ligeiramente os sentidos; os olhos estavam semi-abertos e ele murmurava alguma coisa baixa demais para que conseguíssemos entender.
— Encha uma tampa.
— Só uma tampa? — perguntei.
— Esse troço é dinamite — disse Tookey. — Não dá para sobrecarregar o carburador dele.
Enchi a tampa e olhei para Tookey. Ele fez que sim.
— Bem na goela.
Derramei a bebida. Foi uma coisa notável de se assistir. O homem tremeu da cabeça aos pés e começou a tossir. Seu rosto ficou mais vermelho. Suas pálpebras, que estavam a meio mastro, saltaram para o alto como persianas de uma janela. Ele estava um pouco alarmado, mas Tookey apenas fez com que sentasse como se fosse um bebezão e deu-lhe um tapinha nas costas.
O homem começou a ter ânsias de vômito, e Tookey lhe deu outro tapa.
— Agüente firme — ele disse —, esse conhaque é caro.
O homem tossiu mais um pouco, mas agora já estava diminuindo. Dei a primeira boa olhada nele. Um cara da cidade, com certeza, e de algum lugar no sul de Boston, pelo meu palpite. Usava luvas de pelica, caras mas finas. Havia provavelmente outras daquelas manchas de um branco acinzentado em suas mãos, e ele teria sorte se não perdesse um ou dois dedos. Seu casaco era bem elegante; um casaco de 300 dólares, se eu já vira um na minha frente. Ele usava botinhas curtas que mal chegavam aos seus tornozelos, e comecei a imaginar em que estado se achariam os dedos dos seus pés.
— Melhor — ele disse.
— Muito bem — Tookey disse. — Você consegue vir até a lareira?
— Minha mulher e minha filha — ele disse. — Elas estão lá fora... na tempestade.
— Pelo jeito como você entrou, não imaginei que elas estivessem em casa vendo TV — Tookey disse. — Você pode contar tudo junto da lareira tão bem quanto aqui no chão. Ajude aqui, Booth.
Ele ficou de pé, mas um pequeno gemido escapou de sua boca, que se contorceu de dor. Mais uma vez me perguntei sobre como estariam seus pés, e me perguntei por que Deus achava certo criar idiotas de Nova York que tentavam dirigir pelo sul
do Maine no meio de uma nevasca forte. E me perguntei se sua mulher e sua filhinha estariam vestidas com roupas mais quentes do que as dele.
Levamos o sujeito até a lareira e fizemos com que se sentasse numa cadeira de balanço que era a favorita da Sra. Tookey, até ela falecer, em 74. Sra. Tookey era a responsável pela maior parte dos negócios naquele lugar que fora citado no Down East e no Sunday Telegram e até mesmo uma vez no suplemento de domingo do Globe de Boston. Era na verdade mais uma taberna do que um bar, com seu amplo piso de tábuas corridas, presas com cavilhas em vez de pregos, o bar de madeira de bordo, o antigo teto de vigas aparentes, e a monstruosa lareira de pedra. Sra. Tookey começou a meter algumas idéias na cabeça depois que foi publicado o artigo do Down East, quis chamar o local de Estalagem do Tookey ou Pousada do Tookey, e admito que há um toque colonial aqui, mas prefiro simplesmente Tookey’s Bar. Uma coisa é ser pedante no verão, quando o estado está cheio de turistas, e outra coisa totalmente diferente no inverno, quando você e seus vizinhos têm que conviver entre si. E muitas haviam sido as noites de inverno, como aquela, que Tookey e eu passamos juntos, completamente sozinhos, bebendo scotch com água ou apenas umas cervejas. A minha Victoria faleceu em 1973, e o Tookey’s era um lugar onde havia vozes suficientes para não ouvir os passos da aproximação da morte — mesmo se só houvesse Tookey e eu, era suficiente. Eu não teria a mesma sensação se o nome fosse Pousada do Tookey. Parece maluquice, mas é verdade.
Colocamos esse sujeito em frente à lareira, e ele começou a tremer mais do que nunca. Abraçava os joelhos e seus dentes chacoalhavam e algumas gotas de muco transparente escorriam de seu nariz. Acho que começava a se dar conta de que mais 15 minutos lá fora teriam sido suficientes para matá-lo. Não é pela neve, é pelo vento gelado. Ele rouba o calor de seu corpo.
— Em que lugar você saiu da estrada? — Tookey lhe perguntou.
— D-dez quilômetros ao s-sul d-daqui — ele disse.
Tookey e eu nos entreolhamos, e de repente senti frio. Frio pelo corpo todo.
— Tem certeza? — Tookey perguntou. — Você veio andando por 10 quilômetros na neve?
Ele fez que sim.
— Verifiquei o odômetro quando atravessamos a cidade. Estava seguindo instruções... indo visitar a irmã da minha mulher... em Cumberland... nunca estive lá antes... somos de Nova Jersey...
Nova Jersey. Se existe alguma coisa mais completamente idiota do que um cara de Nova York é um cara de Nova Jersey.
— Dez quilômetros, tem certeza? — Tookey perguntou.
— Certeza absoluta. Encontrei a rampa de saída, mas ela estava obstruída... estava...
Tookey o agarrou. Sob a luz trêmula do fogo, seu rosto parecia pálido e tenso, uns dez anos mais velho do que os 66 que ele realmente tinha.
— Você virou à direita?
— Isso mesmo, à direita. Minha mulher...
— Viu uma placa?
— Placa? — ele olhou desconcertado para Tookey e enxugou o nariz. — Claro que vi. Estava nas minhas instruções. Siga pela Jointner Avenue, passando por Jerusalem’s Lot até a rampa de acesso 295 — ele olhou de Tookey para mim e outra vez para Tookey. Lá fora, o vento assobiava, e uivava e gemia nas calhas. — Não era isso, senhor?
— Lot — Tookey disse, quase baixo demais para se ouvir. — Oh, meu Deus.
— Qual o problema? — o homem disse. Sua voz se elevava. — Não era isso? Quer dizer, a estrada parecia obstruída pela neve, mas eu pensei... se há uma cidade por lá, os tratores estarão trabalhando e... e então eu...
Ele simplesmente deixou a frase morrer no ar.
— Booth — Tookey me disse, em voz baixa. — Vá até o telefone. Ligue para o xerife.
— Claro — disse o idiota de Nova Jersey — isso mesmo. O que há de errado com vocês, afinal? Parece que viram um fantasma.
Tookey disse:
— Não há fantasmas em Salem’s Lot, meu senhor. Disse a elas que ficassem no carro?
— Claro que sim — ele disse, parecendo ofendido. — Não sou maluco.
Bem, isso não se podia provar, na minha opinião.
— Qual seu nome? — perguntei. — Para o xerife.
— Lumley — ele disse. — Gerard Lumley.
Ele voltou a conversar com Tookey, e cruzei o bar até o telefone. Tirei-o do gancho e tudo o que ouvi foi um silêncio mortal. Bati algumas vezes no gancho. Nada.
Voltei. Tookey tinha servido mais um trago de conhaque a Gerard Lumley, e essa dose já descia bem mais suavemente pela sua garganta.
— Ele não estava? — Tookey perguntou.
— O telefone está mudo.
— Cacete — Tookey disse, e nos entreolhamos. Lá fora, o vento soprava em rajadas, jogando neve contra as janelas.
Lumley olhou de Tookey para mim e para ele outra vez.
— Bem, nenhum de vocês dois têm um carro? — ele perguntou. A ansiedade voltara à sua voz. — Elas têm que ficar com o motor ligado para a calefação funcionar. Eu só tinha mais ou menos um quarto de tanque, e levei uma hora e meia para... Ouçam, será que podem me responder? — ele se levantou e agarrou a camisa de Tookey.
— Meu senhor — Tookey disse —, acho que suas mãos não estão mais obedecendo ao seu cérebro.
Lumley olhou para a própria mão, para Tookey, depois largou-o.
— Maine — ele disse. Pelo tom, parecia estar xingando a mãe de alguém. — Muito bem — ele disse. — Onde fica o posto de gasolina mais próximo? Eles devem ter um reboque...
— O posto de gasolina mais próximo fica no centro de Falmouth — eu disse. — A 5 quilômetros daqui, descendo pela estrada.
— Obrigado — ele disse, com um certo sarcasmo, e dirigiu-se para a porta, abotoando o sobretudo.
— Mas não vai estar aberto — acrescentei.
Ele se virou devagar e nos fitou.
— Do que é que está falando, meu velho?
— Ele está tentando dizer que o posto no centro pertence a Billy Larribee, e Billy está lá fora dirigindo o trator para retirar a neve, seu idiota — Tookey disse, pacientemente. — Agora por que não volta para cá e se senta, antes que tenha um troço?
Ele voltou, parecendo aturdido e assustado.
— Estão me dizendo que não podem... que não existe...?
— Não estou lhe dizendo nada — Tookey falou. — O senhor é que está dizendo coisas sozinho. E se parar por um instante, talvez a gente consiga pensar no assunto.
— Que cidade é essa, Jerusalem’s Lot? — ele perguntou. — Por que a estrada estava obstruída? E não havia luzes acesas em parte alguma?
Eu disse:
— Jerusalem’s Lot foi destruída por um incêndio há dois anos.
— E nunca a reconstruíram? — ele não dava a impressão de acreditar.
— Parece que não — eu disse, e olhei para Tookey. — O que vamos fazer?
— Não podemos deixá-las lá fora — ele disse.
Eu me aproximei dele. Lumley se afastara para olhar pela janela, para a noite tomada pela neve.
— E se elas foram apanhadas? — perguntei.
— Pode ser — ele disse. — Mas não sabemos com certeza. Minha Bíblia está na prateleira. Você ainda está usando a medalha do papa?
Tirei o crucifixo de dentro da minha camisa e o mostrei a ele. Nasci e fui criado como protestante, mas a maioria das pessoas que vivem perto de Lot usam alguma coisa — crucifixo, medalha de São Cristóvão, rosário, alguma coisa. Porque há dois anos, no espaço de um sombrio mês de Outubro, Salem’s Lot se tornou ruim. Às vezes, tarde da noite, quando só havia uns poucos fregueses assíduos junto à lareira de Tookey, as pessoas conversavam sobre o assunto. Conversavam acerca do assunto, parece mais certo dizer. Veja, as pessoas em Lot começaram a desaparecer. Primeiro algumas, depois outras, e depois uma grande quantidade. As escolas fecharam. A cidade ficou vazia durante quase um ano. Oh, algumas pessoas se mudaram para lá — em sua maioria, completos idiotas de fora do estado, como aquele belo espécime ali — atraídos pelos baixos preços das propriedades, suponho. Mas não duraram. Uma boa parte se mudou de lá passados um mês ou dois. As outras... bem, desapareceram. Então a cidade pegou fogo até não sobrar nada. Foi no fim de um longo e seco outono. Imaginam que o incêndio tenha começado junto à Marsten House, na colina que se erguia ao lado da Jointner Avenue, mas ninguém sabe como começou, até o dia de hoje. A cidade queimou descontroladamente durante três dias. Depois disso, por algum tempo, as coisas melhoraram. E então recomeçaram.
Só ouvi mencionarem uma vez a palavra “VAMPIRO”. Richie Messina, um motorista doido de caminhão madeireiro, vindo de Freeport, estava no Tookey’s aquela noite, e bebera um bocado.
— Jesus Cristo — rugiu aquele brutamontes que de pé parecia ter quase dois metros de altura, com suas calças de lã e sua camisa quadriculada e suas botas de couro. — Vocês têm tanto medo assim de dizer? Vampiros! É no que todos estão pensando, não é? Credo em cruz, santo nome de Jesus! Exatamente como criancinhas assustadas no cinema! Sabem o que é que existe lá em ’Salem’s Lot? Querem que eu lhes diga? Querem que eu lhes diga?
— Diga logo, Richie — Tookey falou. O bar estava agora no maior silêncio. Você podia ouvir a lareira estalando, e lá fora a chuva suave de novembro que caía na escuridão. — O palco é seu.
— O que existe por lá é basicamente uma matilha de cães selvagens — Richie Messina disse. — É isso o que existe. Isso e um monte de velhinhas que adoram uma história de terror. Ora bolas, por 80 pratas vou até lá e passo a noite no que restou daquela casa assombrada que mete tanto medo em vocês. O que me dizem? Alguém aposta?
Mas ninguém apostou. Richie era um fanfarrão, e ficava agressivo quando bebia, e ninguém ia derramar lágrimas quando ele se fosse, mas nenhum de nós desejava vêlo ir para ’Salem’s Lot depois do escurecer.
— Que todos vocês se danem — Richie disse. — Tenho minha espingarda na mala do meu Chevy, e ela é capaz de deter qualquer coisa em Falmouth, Cumberland e Jerusalem’s Lot. E é para lá que eu vou.
Ele saiu batendo a porta do bar e ninguém disse uma única palavra por algum tempo. Então, Lamont Henry falou, em voz muito baixa:
— Essa será a última vez que vocês verão Richie Messina. Meu Deus — e Lamont, educado para ser metodista desde o colo da mãe, fez o sinal-da-cruz.
— Ele vai ficar mais sóbrio e mudar de idéia — Tookey disse, mas parecia inquieto. — Vai voltar quando estivermos fechando e dizer que foi tudo uma brincadeira.
Mas Lamont estava certo daquela vez, porque ninguém jamais voltou a ver Richie.
Sua mulher disse à polícia estadual que pensava que ele tinha ido para a Flórida, fugindo dos credores, mas você podia ver a verdade em seus olhos — olhos doentes de medo. Não muito tempo depois, ela se mudou para Rhode Island. Talvez pensasse que Richie iria atrás dela, em alguma noite escura. E não sou eu que vou dizer que ele não iria.
Agora, Tookey olhava para mim e eu olhava para Tookey, enquanto enfiava o crucifixo outra vez dentro da camisa. Nunca me senti tão velho ou tão apavorado em minha vida.
Tookey repetiu:
— Nós não podemos simplesmente deixá-las lá fora, Booth.
— É. Eu sei.
Nós nos entreolhamos por mais um momento, e então ele estendeu o braço e segurou o meu ombro.
— Você é um bom homem, Booth.
Isso foi o suficiente para me animar um pouco. Parece que depois que você passa dos setenta as pessoas começam a se esquecer de que você é um homem, ou de que algum dia tenha sido.
Tookey foi até Lumley e disse:
— Eu tenho um Scout com tração nas quatro rodas. Vou buscá-lo.
— Pelo amor de Deus, homem, por que não disse antes? — ele se voltou bruscamente da janela, e olhava para Tookey com raiva. — Por que teve de passar dez minutos fazendo rodeios?
Tookey disse, com muita calma:
— Meu senhor, por favor, feche essa boca. E se por acaso tiver muita vontade de abri-la, lembre-se de quem entrou naquela estrada obstruída no meio dessa maldita nevasca.
Ele começou a dizer alguma coisa, e depois se calou. Sua face agora estava rosada. Tookey saiu para tirar o Scout da garagem. Tateei embaixo do balcão, à procura de sua garrafa de bolso, e a enchi de conhaque. Achei que poderíamos precisar, antes do fim da noite.
Uma nevasca no Maine — você por acaso já esteve em alguma?
A neve cai tão densa e fina que mais parece areia, e o som também lembra areia quando a neve bate nas laterais do seu carro ou da sua picape. Não se pode usar farol alto, porque reflete na neve e você não consegue ver três metros à sua frente. Com o farol baixo, talvez dê para ver uns cinco metros. Mas a neve não me incomoda tanto assim. É do vento que eu não gosto, quando ele aumenta e começa a uivar, soprando a neve numa centena de formas voadoras estranhas, com aquele som que parece concentrar todo o ódio, a dor e o medo do mundo. Há morte na garganta do vento durante a nevasca, morte branca — e talvez alguma coisa além da morte. Não é um som bom de se ouvir quando você está no conforto da sua cama, dentro das cobertas, com os ferrolhos passados nas janelas e as portas trancadas. Mas é muito pior se está dirigindo. E nós íamos dirigir diretamente para ’Salem’s Lot.
— Será que vocês não podem ir um pouco mais depressa? — Lumley perguntou.
Eu disse:
— Para um homem que chegou quase congelado, você está com uma pressa danada de acabar a pé outra vez.
Ele me lançou um olhar ressentido e confuso, e não disse mais nada. Seguíamos pela auto-estrada com uma velocidade constante de 40 quilômetros por hora. Era difícil acreditar que Billy Larribee acabara de limpar aquele trecho uma hora antes; outros cinco centímetros de neve já o cobriam, e mais se acumulava. As rajadas mais fortes de vento faziam o Scout oscilar sobre suas molas. Os faróis dianteiros mostravam um nada branco e rodopiante à nossa frente. Não tínhamos cruzado com um só carro.
Cerca de dez minutos mais tarde, Lumpley disse, ofegando:
— Ei! O que é aquilo?
Ele apontava para o meu lado do carro; até então, eu estava olhando fixamente para a frente. Virei-me, mas era tarde demais. Acreditei ver um vulto curvado afastando-se do carro, lá atrás, no meio da neve, mas poderia ter sido minha imaginação.
— O que era aquilo? Um cervo? — perguntei.
— Acho que sim — ele respondeu, a voz trêmula. — Mas seus olhos... pareciam vermelhos — ele me fitou. — Os olhos dos cervos ficam assim, à noite? — ele parecia quase suplicante.
— Podem ficar de qualquer jeito — eu disse, pensando que isso talvez fosse verdade, mas já tinha visto um bocado de cervos à noite, de dentro de um bocado de carros, e jamais vira um par de olhos reluzindo vermelhos com o reflexo dos faróis.
Tookey não disse nada.
Cerca de 15 minutos mais tarde, chegamos ao lugar onde o monte de neve à direita da estrada não era tão alto, porque os tratores de neve precisam erguer suas lâminas um pouco quando passam por um cruzamento.
— Parece ser este o lugar em que entramos — Lumley disse, mas seu tom de voz não estava muito seguro. — Não estou vendo a placa...
— É aqui mesmo — Tookey disse. A voz não parecia em absoluto a sua. — Só dá para ver o alto do poste.
— Oh. Claro — Lumley parecia aliviado. — Ouça, Sr. Tooklander, peço desculpas por ter perdido a calma agora há pouco. Estava com frio e preocupado e xingando a mim de duzentas formas diferentes. E quero agradecer a vocês dois...
— Não agradeça a Booth e a mim enquanto as duas não estiverem aqui dentro do carro — Tookey disse.
Engrenou a tração nas quatro rodas e abriu caminho em meio a um monte de neve até a Jointner Avenue, que atravessa Lot e vai dar na 295. A neve jorrava dos páralamas. As rodas traseiras começaram a derrapar um pouco, mas Tookey dirigia pela neve desde o tempo do onça. Ele manobrou com perícia, falou com o carro, e lá fomos nós em frente. Os faróis dianteiros iluminavam as fracas marcas deixadas por outros pneus de tempos em tempos, as marcas feitas pelo carro de Lumley, que então desapareciam outra vez. Lumley estava inclinado para a frente, procurando seu carro. E de repente, Tookey disse:
— Sr. Lumley?
— O que foi? — ele voltou os olhos para Tookey.
— As pessoas por aqui são um pouco supersticiosas a respeito de Salem’s Lot — Tookey disse, parecendo bastante calmo, mas eu podia ver os profundos sulcos de tensão em volta da sua boca, e a maneira como seus olhos não paravam de saltar de um lado para o outro. — Se sua família estiver no carro, será ótimo. Vamos pegá-las, voltar para minha casa, e amanhã, quando a tempestade passar, Billy ficará feliz em rebocar o seu carro para fora da neve. Mas se elas não estiverem no carro...
— Se não estiverem no carro? — Lumley interrompeu, bruscamente. — Por que elas não estariam no carro?
— Se elas não estiverem no carro — Tookey prosseguiu, sem responder —, vamos fazer meia-volta e ir para o centro de Falmouth procurar o xerife. De qualquer modo, não faz sentido ficar perambulando por aí à noite, no meio de uma tempestade de neve, não é mesmo?
— Elas vão estar no carro. Onde mais poderiam estar?
Eu disse:
— Uma outra coisa, Sr. Lumley. Se virmos alguém, não vamos falar com essa pessoa. Nem mesmo que fale conosco. Entendeu?
Bem devagar, Lumley perguntou:
— O que são essas superstições exatamente?
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa — só Deus sabe o que teria dito — Tookey interrompeu.
— Chegamos.
Fomos nos aproximando da traseira de um grande Mercedes. Todo o capô estava enterrado na neve, e um outro monte cobria por completo a lateral esquerda do carro. Mas as luzes traseiras estavam acesas e podíamos ver a fumaça saindo do cano de descarga.
— Seja como for, não ficaram sem gasolina — Lumley disse.
Tookey parou e puxou o freio de mão do Scout.
— Lembre-se do que Booth disse, Lumley.
— Claro, claro — mas ele não pensava em outra coisa que não fosse sua mulher e sua filha. E não vejo como alguém possa culpá-lo.
— Pronto, Booth? — Tookey me perguntou. Seus olhos estavam fixos nos meus, sombrios e cinzentos sob a luz do painel.
— Acho que estou — eu disse.
Saímos todos do carro, e o vento nos agarrou, jogando neve em nossos rostos. Lumley ia na frente, dobrado contra o vento, o sobretudo elegante esvoaçando atrás dele como a vela de um barco. Projetava duas sombras, uma criada pelos faróis de Tookey, a outra pelas lanternas traseiras de seu próprio carro. Eu vinha em seguida, e Tookey estava a um passo atrás de mim. Quando cheguei ao porta-malas do Mercedes, Tookey me agarrou.
— Deixe ele ir — disse.
— JANEY! FRANCIE! — Lumley gritava. — Está tudo bem? — ele abriu a porta do motorista e se inclinou para dentro do carro. — Está tudo...
Parou, petrificado. O vento arrancou a pesada porta de suas mãos e a escancarou para trás.
— Meu Deus do céu, Booth — Tookey disse, um tom abaixo do grito do vento. — Acho que aconteceu de novo.
Lumley se virou para nós. Seu rosto estava assustado e perplexo, seus olhos arregalados. Subitamente, atirou-se contra nós em meio à neve, escorregando e quase caindo. Empurrou-me para o lado como se eu não existisse e agarrou Tookey.
— Como você sabia? — ele rugiu. — Onde elas estão? O que diabos está acontecendo aqui?
Tookey se livrou dele e o afastou para o lado, avançando. Ele e eu olhamos juntos para o interior do Mercedes. Estava quente como pão fresco, mas não continuaria daquele jeito por muito tempo. A luz âmbar que indicava o tanque na reserva estava acesa. O carrão estava vazio. Havia uma boneca Barbie no tapete do assento do carona. E uma parca infantil de esqui jogada no assento traseiro.
Tookey cobriu o rosto com as mãos... e então desapareceu. Lumley o agarrara e o jogara sobre o monte de neve. Seu rosto estava pálido e desvairado. Sua boca se contorcia como se ele tivesse mastigado alguma coisa muito amarga que ainda se agarrava aos seus dentes e ele não conseguia cuspir. Enfiou o braço no interior do carro e apanhou a parca.
— O casaco de Francie? — ele disse, numa espécie de sussurro. E depois repetiu, aos brados: — O casaco de Francie! — ele se virou, segurando-o na frente do corpo pelo pequenino capuz com borda de pele e olhou para mim, perplexo e incrédulo. — Ela não pode ficar aqui fora sem o casaco, Sr. Booth. Ela... ela... vai morrer congelada.
— Sr. Lumley...
Ele passou por mim, andando às cegas e ainda segurando a parca. Gritava:
— Francie! Janey! Onde estão vocês? Onde estão vocêêês?
Dei a mão a Tookey e o ajudei a se levantar.
— Você está...
— Não se importe comigo — ele disse. — Temos que pegá-lo, Booth.
Saímos atrás dele o mais rápido que conseguimos, o que não era muito rápido, com a neve chegando aos nossos quadris em alguns lugares. Mas então ele parou e conseguimos alcançá-lo.
— Sr. Lumley... — Tookey começou a dizer, colocando a mão em seu ombro.
— Por aqui — Lumley disse. — Elas vieram por aqui. Olhem!
Olhamos para o chão. Havia uma espécie de depressão ali, e a maior parte do vento passava por cima de nossas cabeças. E você podia ver dois pares de pegadas, um grande e o outro pequeno, que começavam a ser cobertos pela neve. Se tivéssemos chegado cinco minutos depois, teriam desaparecido.
Ele começou a avançar, a cabeça baixa, e Tookey o segurou.
— Não! Não, Lumley!
Lumley virou o rosto enlouquecido para Tookey e cerrou o punho. Ergueu o braço... mas alguma coisa no rosto de Tookey o fez hesitar. Olhou de Tookey para mim, e depois para ele outra vez.
— Ela vai congelar — ele disse, como se fôssemos dois garotinhos idiotas. — Não estão entendendo? Está sem o casaco, e ela só tem 7 anos de idade...
— Elas podem estar em qualquer lugar — Tookey disse. — Não há como seguir essas pegadas. Vão desaparecer assim que o vento soprar um pouco mais de neve.
— E o que você sugere? — Lumley berrou, a voz aguda e histérica. — Se voltarmos para chamar a polícia, ela vai morrer congelada! Francie e a minha mulher!
— Pode ser que já estejam congeladas — Tookey disse. Seus olhos encontraram os de Lumley. — Congeladas, ou algo pior do que isso.
— O que você quer dizer? — Lumley sussurrou. — Fale logo, diabos! Me diga!
— Sr. Lumley — Tookey disse —, há alguma coisa em Lot...
Mas fui eu quem finalmente concluiu a frase, dizendo a palavra que nunca achei que fosse dizer.
— Vampiros, Sr. Lumley. Jerusalem’s Lot está cheia de vampiros. Imagino que seja difícil engolir isso...
Ele me olhava como se eu tivesse ficado verde.
— Malucos — sussurrou. — Vocês são dois malucos.
Então se virou, colocou as mãos em concha em volta da boca e gritou:
— FRANCIE! JANEY!
Começou a avançar às cegas outra vez. A neve chegava à bainha do seu elegante sobretudo.
Olhei para Tookey.
— O que fazemos agora?
— Vamos atrás dele — Tookey disse. Seu cabelo estava empapado de neve, e ele parecia mesmo um tanto louco. — Simplesmente não sou capaz de abandoná-lo aqui, Booth. Você é ?
— Não — eu disse. — Acho que não.
Então começamos a avançar em meio à neve atrás de Lumley da melhor forma possível. Mas ele ficava cada vez mais distante à nossa frente. Tinha a juventude ao seu lado, compreende? Estava apagando as pegadas, avançando por aquela neve como um touro. Minha artrite começou a me incomodar de maneira terrível, e
comecei a olhar para minhas próprias pernas, dizendo a mim mesmo: Um pouquinho mais, só um pouquinho mais, continuem andando, diabos, continuem andando...
Esbarrei em Tookey, que estava de pé, com as pernas abertas, sobre um monte de neve. Sua cabeça estava baixa e as duas mãos comprimidas contra o peito.
— Tookey — perguntei —, você está bem?
— Estou bem — ele disse, afastando as mãos. — Vamos ficar junto dele, Booth, e quando se cansar ele vai ouvir a voz da razão.
Chegamos ao alto de uma elevação e lá estava Lumley, na parte de baixo, procurando desesperadamente mais pegadas. Pobre homem, não havia a mínima chance de encontrá-las. O vento soprava diretamente na direção do lugar em que ele estava, e qualquer pegada teria sido apagada três minutos depois de ser feita, quanto mais em duas horas.
Ele ergueu a cabeça e gritou para a noite:
— FRANCIE! JANEY! PELO AMOR DE DEUS!
E você podia ouvir o desespero em sua voz, o terror, e sentia pena dele por isso. A única resposta que teve foi o lamento do vento, semelhante a um trem de carga. Quase parecia estar rindo dele, dizendo: Eu as levei, Senhor Nova Jersey, junto com seu carro elegante e seu sobretudo de pêlo de camelo. Levei as duas e apaguei suas pegadas e pela manhã elas estarão tão lindas e congeladas quanto dois morangos no freezer...
— Lumley! — Tookey gritou, mais alto do que o vento. — Ouça, deixe para lá os vampiros, as assombrações ou coisas desse tipo, mas ouça o que eu estou dizendo! Está tornando as coisas piores para elas! Temos que ir chamar...
E então houve uma resposta, uma voz saindo da escuridão como sininhos de prata, e meu coração ficou tão frio quanto gelo numa cisterna.
— Jerry... Jerry, é você?
Lumley virou-se na direção do som. E então ela veio, flutuando para fora das sombras de um pequeno bosque como um fantasma. Era uma mulher da cidade, com certeza, e naquele momento me pareceu a mulher mais bonita que eu jamais tinha visto. Senti vontade de chegar perto dela e lhe dizer como estava feliz por ela estar bem, afinal de contas. Ela usava um pesado pulôver verde, ou uma coisa desse tipo, um poncho, acho que é assim que se chama. Ele flutuava ao seu redor, e seu cabelo escuro esvoaçava no vento tempestuoso como as águas de um riacho em dezembro, logo antes que o frio do inverno o imobilizasse e trancasse-o dentro de seu curso.
Talvez tenha mesmo dado um passo em sua direção, porque senti a mão de Tookey em meu ombro, áspera e quente. E ainda assim — como posso dizer? — eu ansiava por ela, tão escura e bonita com aquele poncho verde flutuando em volta de
seu pescoço e de seus ombros, tão exótica e estranha a ponto de fazer você pensar em alguma beldade de um poema de Walter de la Mare.
— Janey! — Lumley gritou. — Janey! — ele começou a cambalear em meio à neve na direção dela, os braços estendidos.
— Não! — Tookey gritou. — Não, Lumley!
Ele sequer olhou... mas ela, sim. Olhou para cima, em nossa direção, e sorriu. E quando fez isso, senti meu anseio e meu desejo se transformarem num horror tão frio quanto um túmulo, tão branco e silencioso quanto ossos numa mortalha. Mesmo no alto da elevação, podíamos ver o brilho vermelho sinistro daqueles olhos. Eram menos humanos do que os olhos de um lobo. E quando ela riu, você podia ver como seus dentes tinham-se tornado longos. Ela não era mais humana. Era algo morto que de algum modo voltara à vida em meio àquela tempestade negra e uivante.
Tookey fez o sinal-da-cruz para ela. Ela se encolheu... e então riu para nós outra vez. Estávamos longe demais, e talvez amedrontados demais.
— Faça-o parar! — sussurrei. — Não podemos impedir?
— Tarde demais, Booth! — Tookey disse, sombrio.
Lumley a alcançou. Parecia ele próprio um fantasma, envolvido pela neve como estava. Estendeu os braços para ela... e então começou a gritar. Continuo ouvindo aquele som em meus sonhos, aquele homem gritando como uma criança no meio de um pesadelo. Tentou se afastar dela, mas seus braços, longos e nus e brancos como a neve, moveram-se como cobras e o puxaram para si. Pude vê-la erguer a cabeça e então lançá-la para a frente...
— Booth! — Tookey disse, a voz rouca. — Temos que sair daqui!
Então corremos. Acho que alguns diriam que corremos feito ratos, mas quem dissesse isso não estivera lá naquela noite. Voltamos correndo sobre nossa própria trilha, caindo, levantando de novo, escorregando e deslizando. Eu não parava de olhar por cima do ombro, para ver se aquela mulher nos seguia, sorrindo aquele seu sorriso e olhando para nós com aqueles olhos vermelhos.
Voltamos para o Scout e Tookey se dobrou no meio, apertando o peito.
— Tookey — eu disse, completamente apavorado. — O que...
— O coração — ele disse. — Tem estado ruim há cinco anos ou mais. Me coloque no assento do carona, Booth, e vamos dar o fora daqui.
Enfiei um braço por baixo de seu casaco, arrastei-o até o outro lado do carro, e dei um jeito de levantá-lo e colocá-lo sentado lá dentro. Ele inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos. Sua pele parecia de cera, e estava amarelada.
Contornei o carro às pressas, e quase dei um encontrão na garotinha. Ela estava simplesmente ali, ao lado da porta do motorista, o cabelo preso em marias-chiquinhas, usando apenas um vestidinho amarelo.
— Tio — ela disse, numa voz aguda clara e doce como a névoa da manhã —, será que não pode me ajudar a encontrar minha mãe? Ela sumiu e eu estou com tanto frio...
— Meu bem — eu disse —, meu bem, é melhor você entrar na picape. Sua mãe...
Parei de falar e, se em algum momento da minha vida estive perto de desmaiar, foi esse. Ela estava ali, entende, mas estava sobre a neve, não havia pegadas, em nenhuma direção.
Ela então levantou os olhos para mim, Francie, a filha de Lumley. Não tinha mais do que 7 anos de idade, e teria 7 anos por uma eternidade de noites. Seu rostinho tinha um branco medonho, cadavérico, e seus olhos, um vermelho e um prata capazes de tragá-lo para dentro. E logo abaixo do seu queixo pude ver dois furinhos como picadas de agulha, as bordas horrivelmente laceradas.
Ela estendeu os braços para mim e sorriu.
— Me pega no colo, tio — disse, delicadamente. — Quero te dar um beijo. Então pode me levar para junto da minha mamãe.
Eu não queria, mas não havia nada que pudesse fazer. Inclinei-me para a frente, os braços estendidos. Pude ver sua boca se abrindo, pude ver as pequenas presas dentro do anel rosado de seus lábios. Alguma coisa escorreu pelo seu queixo, brilhante e prateada, e com um horror vago, muito distante, me dei conta de que ela estava babando.
Suas mãozinhas se fecharam em torno do meu pescoço e eu pensava: Bem, talvez não seja tão ruim, talvez não seja tão terrível depois de algum tempo — quando alguma coisa preta voou para fora do Scout e a atingiu no peito. Houve um sopro de fumaça com um cheiro estranho, um clarão luminoso que se extinguiu um instante depois, então ela recuava, sibilando. Seu rosto estava deformado, transformado numa máscara astuta de raiva, ódio e dor. Ela se virou de lado e então... e então desapareceu. Num momento estava ali, e no momento seguinte havia um redemoinho de neve que lembrava um vulto humano. E o vento o soprou para longe por sobre os campos.
— Booth! — Tookey sussurrou. — Depressa, agora!
E fui depressa. Mas não tão depressa a ponto de não ter tempo de ver o que ele jogara naquela garotinha do inferno. A Bíblia Douay de sua mãe.
Isso aconteceu faz algum tempo. Já estou mais velho agora, e não era nenhum frangote naquela ocasião. Herb Tooklander faleceu há dois anos. Morreu
tranqüilamente, durante a noite. O bar ainda funciona, um homem e sua mulher de Waterville compraram o lugar, boa gente, e mantiveram tudo praticamente inalterado. Mas não vou muito ali. De algum modo é diferente, agora que Tookey se foi.
As coisas em Lot continuam do jeito que sempre estiveram. O xerife encontrou o carro daquele tal de Lumley no dia seguinte, sem gasolina, a bateria arriada. Nem Tookey nem eu dissemos qualquer coisa a respeito. De que adiantaria? E, de vez em quando, alguém que viaja de carona ou acampando desaparece em algum lugar por ali, em Schoolyard Hill ou perto do cemitério de Harmony Hill. Encontram a mochila do sujeito, ou um livro de bolso todo inchado e ensopado de chuva ou neve, coisas desse tipo. Mas nunca as pessoas.
Ainda tenho sonhos ruins sobre aquela noite de tempestade em que fomos até lá. Não tanto com a mulher quanto com a garotinha, e o modo como ela sorria quando estendeu os braços para que eu pudesse pegá-la. Para que ela pudesse me dar um beijo. Mas estou velho, e logo chegará o momento em que os pesadelos acabam.
Você talvez tenha a oportunidade de viajar pelo sul do Maine um dia desses. Uma região muito bonita. Talvez queira até parar no Tookey’s Bar para tomar um drinque. Um lugar agradável. Mantiveram o nome. Então, tome seu drinque, e em seguida meu conselho é que continue em frente, em direção ao norte. O que quer que faça, não tome aquela estrada para Jerusalem’s Lot.
Sobretudo depois que escurecer.
Há uma garotinha em algum lugar por lá. E acho que ela ainda está esperando pelo seu beijo de boa-noite.
 

FIM

quarta-feira, 4 de abril de 2012


Tendências sobrevivencialistas

O sobrevivencialismo é um conceito amplo que foi adotado por muitas pessoas de locais e origens diferentes e por isso varia bastante quanto aos métodos e estratégias usados para se atingir um fim comum: Aumentar as chances de sobrevivência frente a ameaças fatais.
Para atingir este objetivo é necessário fazer planos, adquirir habilidades, equipamentos, construir abrigos, operar veículos e isso muitas vezes está além da capacidade financeira ou intelectual de um único indivíduo ou núcleo familiar. Criar estratégias eficientes, especialmente para situações de longo prazo, é uma tarefa complexa e por isso foram criados os grupos de sobrevivencialistas. Pessoas diferentes agem de forma diferente mesmo quando buscam um mesmo objetivo, portanto grupos bastante distintos de sobrevivencialistas com diferentes vantagens e desvantagens foram criados, basicamente podemos classificá-los em grupos com as seguintes tendências:

Ecologistas

Buscam viver em harmonia com a natureza, minimizando o impacto natural causado pela civilização. Geralmente esses grupos criam ecovilas, praticam permacultura, reciclam seus resíduos, adotam um estilo de vida saudável e são amistosos. Tecnicamente são muito bons e conseguem criar formas sustentáveis para se viver em longo prazo, o que é extremamente útil para uma situação FMCC ou similar, mas quando esta tendência é exacerbada começam surgir algumas desvantagens. Devido a sua natureza ideológica tais grupos atraem muitos hippies, vegans, místicos new age e afins que quando estão em grande número comprometem o bom andamento do grupo e a capacidade de sobrevivência do mesmo por negligenciar alguns aspetos importantes referentes à ciência e tecnologia. Isso é muito ruim, mas a principal desvantagem desses grupos é desprezar completamente o quesito defesa. Preservam o planeta, criam belas ecovilas que serão utilizadas por outros, pois aqueles que acham que tudo se resolve com conversa acabam sendo eliminados por aqueles que discordam desse ponto de vista.

Primitivistas

Acreditam que a melhor forma de garantir a sobrevivência em uma situação de caos prolongado é usar técnicas primitivas de sobrevivência, pois a tecnologia moderna seria difícil de ser mantida ou restabelecida nesta situação. A importância de se conhecer e ser capaz de utilizar tais técnicas é incontestável, entretanto quando se foca demais nisso muitos acabam se tornando irracionalmente anti-tecnológicos, ignorando a realidade e perdendo a praticidade (mesmo em uma situação de FMCC seria muito mais fácil encontrar fios e cordas para amarrar coisas do que usar tendões secos de animais); em casos extremos como o dos Amish e de outros grupos religiosos semelhantes que proíbem seus membros de utilizarem qualquer tecnologia moderna a capacidade de sobrevivência também fica comprometida, a vida na antiguidade não era fácil, as pessoas morriam por causa de coisas hoje consideradas banais. Se o intuito é sobreviver nenhum conhecimento deve ser desprezado.

Hi-Techs

Ao contrário dos primitivistas eles acreditam que a melhor saída para sobreviver é usar tecnologia moderna, para isso buscam formas mais seguras de obter energia elétrica através de fontes independentes (solar, eólica, hidrelétrica) para continuar usando seus equipamentos, buscam produzir biocombustíveis para continuar usando seus carros, criam mini-laboratórios para produzir medicamentos e abrigos extremamente bem elaborados. É uma forma excelente de se preparar para o caos, mas essa mentalidade tem alguns problemas sérios; um dos maiores é o preço, comprar e manter sistemas alternativos é muito caro, está muito além da capacidade financeira de uma pessoa comum, são poucos os que conseguiriam montar um esquema de proteção eficiente com recursos próprios.
Outra desvantagem é que seria necessário muitas pessoas com conhecimento técnico em várias áreas para mantê-lo, o que trás de volta o problema da dependência de um sistema que não pode falhar. Ficar preso a isso é andar em círculos.

Paramilitares

São grupos que acreditam na sobrevivência pela força, montam milícias, estocam armas e constroem bunkers quase inexpugnáveis. Em um primeiro momento de uma situação de caos essa é a opção mais confiável de sobrevivência, mas se a situação se prolongar esses grupos deixam de ser eficientes. Com o passar do tempo não haverá mais nada para saquear e como o foco desses grupos está todo no combate, as demais habilidades de sobrevivência tendem a ser negligenciadas, o que compromete o seu sucesso no longo prazo. 

Conclusão

Por problemas culturais, econômicos e geográficos não podemos nos ater a nenhuma dessas tendências, nem seria lógico fazê-lo. O melhor que temos a fazer é combinar os elementos positivos desses grupos e tentar minimizar as desvantagens quando a tendência geral se aproximar de um desses lados.